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14/06/2022

Muito se fala sobre inovação em saúde, mas o mercado está pronto para isso?

A inovação na saúde já começou, mas caminha à passos tímidos. Será que o mercado está preparado para as soluções inovadoras que estão surgindo?

inovação em saúde

Muito se fala sobre inovação em saúde, mas o mercado está pronto para isso?

Há mais de 15 anos, estou envolvido com a área de Produto. Sempre observei de perto as transformações nos mais variados setores da economia, e sempre dei uma atenção especial à inovação. Embora eu tenha me aventurado em diversos projetos ao longo dos anos, eu somente comecei a atuar com o mercado de saúde neste último.

Logo no início, percebi que inovar neste setor não seria nada fácil, e também notei certas similaridades com a disrupção que aconteceu no setor financeiro há cerca de 10 anos, com a revolução proporcionada pelas fintechs.

É claro que apesar de haver similaridades, não é justo compararmos ambos em pé de igualdade. Enquanto o setor financeiro vem passando por reformas há mais de uma década, as transformações na saúde ainda caminham a passos tímidos.

Para que esse panorama mude, algumas coisas precisam mudar. Hoje, na saúde suplementar, temos alguns players que são realmente hegemônicos e que controlam grandes fatias do mercado. Não à toa, segundo o CADE, entre 2011 e 2020, o número de operadoras de saúde diminuiu em 47%, a partir do constante movimento de aquisições entre as organizações

Isso, na prática, acaba afetando o lado mais frágil de toda a cadeia: no caso da saúde, o paciente - que acaba tendo menos opções e acaba se submetendo a preços menos competitivos pela falta de concorrência.

É válido concluir, portanto, que esses grandes players serão menos proativos na hora de promover mudanças significativas no mercado. Afinal, “não se mexe em time que está ganhando”. E por mais que essa máxima possa ser constantemente colocada à prova, poucas são as operadoras que irão querer repensar e replanejar todo um modelo de negócio - ainda mais tendo em vista a existência da rentabilidade no modelo de negócio vigente.

Vale ressaltar, no entanto, que até mesmo isso está com seus dias contados. A insustentabilidade da saúde suplementar é inevitável se continuarmos com o atual modelo hospitalocêntrico, com foco na doença, em vez do modelo de cuidado centrado no paciente. 

Uma prova cabal disso é a transição etária brasileira: a pirâmide etária ainda é distribuída de uma maneira em que a população idosa não é tão preponderante, mas esse cenário deve mudar bruscamente até 2030, quando a proporção de idosos ultrapassará o total de crianças entre zero e 14 anos.

Enquanto um adolescente com menos de 18 anos custa R$1.500 ao ano aos planos de saúde, beneficiários a partir de 59 anos podem chegar a custar R$8.000 ao ano! E quando olhamos para a fatia acima dos 80 anos, esse custo pode chegar a R$19.000 anualmente.

Olhando para esse número, entendemos que essa resistência para mudar é infundada e que, na realidade, mesmo que “alguns times estejam ganhando, certamente não será assim por muito tempo”. 

Indo mais a fundo, também entendemos que inovar em saúde não se trata apenas de mudar o sistema focado na doença para um focado no paciente.

Outra questão premente, e urgente, é a gestão de dados de pacientes e profissionais da saúde. Hoje, não existe interoperabilidade. Os sistemas não dialogam entre si, faltam investimentos, para resultar em mudanças sólidas. A troca de dados entre os diferentes níveis de atenção é ineficiente e incompleta.

Claro que quando falamos em dados, logo vem à tona a LGPD, que não pode, de maneira alguma, ser deixada de lado. Pensar em inovação é, por extensão, pensar em alguma maneira de otimizar. Se os avanços proporcionados pela LGPD não forem levados em conta, isso resultaria num retrocesso. Como podemos pensar num sistema de saúde em que o paciente está no centro, se as informações a respeito dele não estão?

Assim como o foco, a atenção e o cuidado devem ser voltados aos pacientes, assim como seus dados pessoais, graças à Lei Geral de Proteção de Dados. No final das contas, inovar sempre acarretará nos mais diversos percalços. Não é fácil propor algo novo, ainda mais quando outros players já estão nesse jogo há muito mais tempo e possuem suas próprias maneiras de atuar.

Confesso que às vezes julgo que falta senso de urgência, mas olhando bem para o contexto, também entendo que é difícil provar valor quando a dor ainda não está tão acentuada. Mas uma coisa é fato: muito dinheiro será perdido até que mudanças genuínas surjam entre as operadoras mais conservadoras do mercado. Aliás, francamente, mudanças significativas só acontecerão quando essas grandes organizações perceberem uma mudança nos hábitos das pessoas, que no lugar de optarem por planos tradicionais, irão escolher opções mais integradas e inteligentes; que priorizem e promovam a saúde integrativa para essas pessoas.

Tenha certeza de que esse lugar será (e já começa a ser) ocupado, principalmente, pelas startups com foco em soluções em saúde (healthtechs)

A inovação ainda não está sendo televisionada

Hoje, as healthtechs têm ocupado a principal função no que diz respeito à inovação em saúde. Qualquer que seja a possibilidade, tenho certeza que são elas  quem tomarão as rédeas de toda a transformação deste setor, que é um dos mais importantes para a sociedade.

Inclusive, a própria empresa onde eu trabalho não me deixa mentir, e os investidores por si só também observam essa guinada: este ano, a fim de promover a melhoria no acompanhamento de pessoas com diabetes, hipertensão, colesterol alto e obesidade, a Klivo totalizou a extensão da sua rodada da Série A de investimento em R$50 milhões

Mas não para por aí! Esse movimento também é visto por outras healthtechs como a Alice e a Pipo Saúde, que receberam, no final de 2021, 729 milhões e 100 milhões de reais, respectivamente, em rodadas da Série A (Pipo Saúde) e Série C (Alice) de investimentos

E se todos esses números não foram suficientemente impressionantes, segundo dados levantados pela plataforma de inovação Distrito, o ano de 2021 foi especialmente promissor às healthtech, que receberam aporte total de U$ 530,6 milhões de dólares

Muito embora essas startups tenham tudo para promover a mudança necessária e mostrar o real senso de urgência que precisa ser dado à inovação no setor da saúde, ainda não temos nenhuma healthtech que se enquadre como unicórnio, ao contrário das fintechs.

As healthtechs ainda precisarão de tempo para provar sua real importância. E se quiserem realizar essa mudança, precisarão ter como enfoque a geração de valor integral. As soluções precisam agir na maneira como o sistema inteiro age, e não soluções pontuais, que buscam agregar valor de maneira pontual

Uma mentira dita muitas vezes não se torna uma verdade. A medicina é preditiva e preventiva, e deve sempre ser pautada em dados e sistemas integrados, que propiciam escalabilidade do modelo de negócio. E somente assim, dessa maneira, o mercado de saúde entrará nos eixos e terá as suas dores solucionadas.

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Sobre o autor

Vitor Milano trabalha atualmente como Head de Produto na Klivo. É bacharel em Ciências da Computação e atua com desenvolvimento de produtos digitais há mais de 15 anos, tendo dedicado os últimos anos de sua carreira atuando como executivo de produto e liderando equipes multidisciplinares de desenvolvimento de produto em diversos setores.

Com sólida experiência no suporte ao crescimento de negócios de alta escala e demanda, incluindo soluções B2B e B2C, parte importante de sua bagagem inclui a formação e liderança de equipes internacionais, trabalhando no desenvolvimento de produtos digitais para o mercado brasileiro e na América Latina.